sábado, 29 de julho de 2017

A carta final


Porque escrever pode ser o seu último pedido antes de fritar seus miolos em uma cadeira elétrica? Talvez seja uma forma de expurgar meus pecados de forma simples e resumida, já que eu não acredito em Deus. Enfim, permita-me me apresentar: me chamo Frederic King, mas a galera costumava me chamar de Fred.
Minha vida já começou daquele jeito, quando fui concebido em um beco de Manhattan por um usuário de drogas e uma moradora de rua (também usuária). Desde pequeno tive que conviver com as drogas, porém nunca tive interesse ou vontade de usar, justamente por esse motivo apanhei muito da minha “mãe”. Você deve estar nessa parte pensando que tipo de mãe é essa, não é? Bom... ela não batia muito bem da cabeça mesmo, aliás, sempre batiam a cabeça dela na parede por conta das dívidas com as drogas. Decidi fugir de casa – se é que devo chamar assim a lata de lixo que eu morava no beco – aos 7 anos de idade. Sem rumo, sem nada.
Depois de vagar pedindo comida, brigando com pombos, fui parar em Little Italy, onde comecei a fazer minha vida. Á princípio, arrumei um trabalho de engraxate na frente da quitanda de Tony, dava pra ganhar uns trocados com aquele trabalho, mas ainda não tinha onde dormir. Uma noite enquanto dormia na rua, roubaram minha caixa de engraxar, então tive que arrumar outro emprego. Por sorte, eu vivia na rua, engraxava já a quase 1 ano e justamente por não aumentar o preço do serviço (e isso não foi uma atitude burra), ganhei clientes importantes do bairro, da cidade... talvez até do Estado. E foi assim que eu fui atrás de Vito.
Vito era um um dos integrantes da família mais respeitada de Little Italy, não irei falar o nome para não os entregar. Conversei com ele e passei a fazer pequenos serviços, como fazer compras, entregar recados e claro, engraxar os sapatos, em troca de moradia e alimento. Vito confiava em mim, via “o filho que nunca tive” como costumava dizer, me matriculou em uma escola e me tratava muito bem. Tudo aconteceu muito rápido para mim, que sai literalmente do lixo, e estava amando. Queria ajudar ainda mais Vito, mas ele nunca deixava.
- Quando você tiver idade, filho, te precisarei de você. Por hora, se concentre nos estudos para ser alguém na vida.
E foi assim, foquei nos estudos até o meio do Ensino Médio, quando fui chamado por Vito em sua sala. Em todos os anos que vivia naquela casa nunca fui chamado aquela sala, poucas pessoas entravam ali, e eu nunca tive curiosidade de estar lá. Entrei, tive uma conversa com Vito. Ele me perguntou se eu podia fazer qualquer coisa por ele, já que sempre pedia. De início, achei esse papo estranho, mas ele me explicou melhor. Um dos grandes negócios da família é, até hoje, o tráfico de armas e agora que eu era um “menino crescido” – como ele mesmo gostava de dizer –, já poderia ajudar ele de uma forma melhor.  Você deve estar se perguntando como eu nunca percebi isso antes, não é? Simples, Vito me mantinha ocupado o dia inteiro. Eu estudava, fazia aulas de etiqueta e praticava futebol, tudo financiado por ele. Chegava em casa já era no fim de tarde e todas as atividades eram normais. Nunca perguntei nem pedi nada á ele, já que eu era grato por ter um teto sobre minha cabeça e alimento no prato.
Depois da conversa que mudou minha vida, já tive minha primeira missão. Haviam outras famílias em Little Italy, e uma delas em especial estava se intrometendo nos negócios de Vito. Alvejar o chefe da família seria muito difícil, então teria que começar pelo filho. Confesso que foi bem mais fácil do que eu pensei. Vito me deu uma arma carregada, me ensinou a usar e disse o que fazer. Encontrei o “alvo” em uma rua não tão movimentada no fim de tarde, saquei a arma e atirei 6 vezes, acertando três, dois no peito. Com 17 anos, eu tinha matado pela primeira vez e em momento algum eu senti pena, culpa ou remorso. Voltei pra casa, coloquei a arma na mesa de Vito e avisei que o serviço estava pronto. Instantes depois ele recebeu um telefonema falando que o filho do outro chefe havia sido baleado e morto, Vito me parabenizou na hora e a partir dali me tornei o que sou até hoje, o que serei até o momento em meu último miolo derreter e meu olho descolar da orbita por conta da voltagem alta.
A partir dali eu tive que sair da escola, aprendia o que dava lendo em casa. Era chamado para “missões” frequentes. Basicamente consistia em matar, roubar, obter informações necessárias de forma eficaz (tortura inclusa, claro) e fazer o acordo ou entrega do carregamento. Era simples, eu impunha respeito em todos e se não respeitassem, eu tinha o total direito de eliminar do mapa de forma rápida e eficaz. Nenhuma dessas missões em si foram tão marcantes quanto a primeira, a qual já mencionei. Era mandado para o bairro chinês, árabe, já cheguei a ser mandado até para outros Estados. Claro que minha vida não ia passar despercebido, eu era conhecido nesse submundo e quase sempre tinha alguém tentando ter minha cabeça como troféu, mas como podem perceber, não conseguiram... e foi por pouco.
O motivo da minha prisão é uma coisa tão banal e idiota, que acho desnecessário entrar em detalhes. Basta dizer que foi uma enrascada muito malfeita em que eu caí. Tráfico de armas não dá pena de morte, mas assassinatos sim.
E neste momento você, o leitor dessa carta, deve estar se perguntando se eu sinto culpa, remorso, ou qualquer merda desse tipo agora no meu leito de morte (ou cadeira, no caso) e a resposta é direta e contém três letras: NÃO! E sabe por que?
Porque se eu não tivesse ido atrás de Vito e ajudado em tudo que ele me pediu e propôs, eu teria sido um zé ninguém e moraria no lixo, provavelmente se rendendo a tentação das drogas igual aconteceu com a minha mãe ou com meu pai – o qual nunca fiz ideia de quem era –. Hoje sou conhecido, fui respeitado na prisão, respeitado fora dela e serei lembrado para todo sempre.
Enfim o guarda me chama, tá na hora de fritar um pouco. Tenho alguns agradecimentos a fazer, primeiro ao ser vivo que roubou minha caixa de engraxate porque se não fosse ele, eu não teria trilhado esse caminho. E também claro, agradeço a Vito pela oportunidade e por toda a ajuda que pode me dar ao longo dos meus 23 anos que acabam hoje. Vida curta, não? Mas vou sem arrependimento, afinal só se vive uma vez.

Texto do Blog Livros, Amor e Mais.
Sou leitora deles há pouco tempo, mas adoro esse cantinho especial.

5 comentários:

  1. Texto escrito com bastante intensidade.

    Boa semana, uma semana intensa!

    BjóKawanami

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  2. Que texto sensacional! Gostei imenso de o ler, pela forma crua e intensa de cada palavra! Extraordinário!

    http://ummarderecordacoes.blogs.sapo.pt/

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  3. Nessa carta dá para refletir uma série de coisas;
    Família, Sociedade, Poder Público as omissões etc, etc.
    Há muitos culpados...
    Boa entrada de mês de agosto.

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  4. Bom resto de Semana
    e boas leituras também
    Beijinhos de aqui dos Calhaus ~_^```

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  5. AAAAA Obrigada por repostar o texto! <333
    Amo o cantinho!
    Obrigada por tudo mesmo <3
    Beeeeijos!
    http://livrosamoremais.blogspot.com.br/

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