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sábado, 29 de julho de 2017

A carta final


Porque escrever pode ser o seu último pedido antes de fritar seus miolos em uma cadeira elétrica? Talvez seja uma forma de expurgar meus pecados de forma simples e resumida, já que eu não acredito em Deus. Enfim, permita-me me apresentar: me chamo Frederic King, mas a galera costumava me chamar de Fred.
Minha vida já começou daquele jeito, quando fui concebido em um beco de Manhattan por um usuário de drogas e uma moradora de rua (também usuária). Desde pequeno tive que conviver com as drogas, porém nunca tive interesse ou vontade de usar, justamente por esse motivo apanhei muito da minha “mãe”. Você deve estar nessa parte pensando que tipo de mãe é essa, não é? Bom... ela não batia muito bem da cabeça mesmo, aliás, sempre batiam a cabeça dela na parede por conta das dívidas com as drogas. Decidi fugir de casa – se é que devo chamar assim a lata de lixo que eu morava no beco – aos 7 anos de idade. Sem rumo, sem nada.
Depois de vagar pedindo comida, brigando com pombos, fui parar em Little Italy, onde comecei a fazer minha vida. Á princípio, arrumei um trabalho de engraxate na frente da quitanda de Tony, dava pra ganhar uns trocados com aquele trabalho, mas ainda não tinha onde dormir. Uma noite enquanto dormia na rua, roubaram minha caixa de engraxar, então tive que arrumar outro emprego. Por sorte, eu vivia na rua, engraxava já a quase 1 ano e justamente por não aumentar o preço do serviço (e isso não foi uma atitude burra), ganhei clientes importantes do bairro, da cidade... talvez até do Estado. E foi assim que eu fui atrás de Vito.
Vito era um um dos integrantes da família mais respeitada de Little Italy, não irei falar o nome para não os entregar. Conversei com ele e passei a fazer pequenos serviços, como fazer compras, entregar recados e claro, engraxar os sapatos, em troca de moradia e alimento. Vito confiava em mim, via “o filho que nunca tive” como costumava dizer, me matriculou em uma escola e me tratava muito bem. Tudo aconteceu muito rápido para mim, que sai literalmente do lixo, e estava amando. Queria ajudar ainda mais Vito, mas ele nunca deixava.
- Quando você tiver idade, filho, te precisarei de você. Por hora, se concentre nos estudos para ser alguém na vida.
E foi assim, foquei nos estudos até o meio do Ensino Médio, quando fui chamado por Vito em sua sala. Em todos os anos que vivia naquela casa nunca fui chamado aquela sala, poucas pessoas entravam ali, e eu nunca tive curiosidade de estar lá. Entrei, tive uma conversa com Vito. Ele me perguntou se eu podia fazer qualquer coisa por ele, já que sempre pedia. De início, achei esse papo estranho, mas ele me explicou melhor. Um dos grandes negócios da família é, até hoje, o tráfico de armas e agora que eu era um “menino crescido” – como ele mesmo gostava de dizer –, já poderia ajudar ele de uma forma melhor.  Você deve estar se perguntando como eu nunca percebi isso antes, não é? Simples, Vito me mantinha ocupado o dia inteiro. Eu estudava, fazia aulas de etiqueta e praticava futebol, tudo financiado por ele. Chegava em casa já era no fim de tarde e todas as atividades eram normais. Nunca perguntei nem pedi nada á ele, já que eu era grato por ter um teto sobre minha cabeça e alimento no prato.
Depois da conversa que mudou minha vida, já tive minha primeira missão. Haviam outras famílias em Little Italy, e uma delas em especial estava se intrometendo nos negócios de Vito. Alvejar o chefe da família seria muito difícil, então teria que começar pelo filho. Confesso que foi bem mais fácil do que eu pensei. Vito me deu uma arma carregada, me ensinou a usar e disse o que fazer. Encontrei o “alvo” em uma rua não tão movimentada no fim de tarde, saquei a arma e atirei 6 vezes, acertando três, dois no peito. Com 17 anos, eu tinha matado pela primeira vez e em momento algum eu senti pena, culpa ou remorso. Voltei pra casa, coloquei a arma na mesa de Vito e avisei que o serviço estava pronto. Instantes depois ele recebeu um telefonema falando que o filho do outro chefe havia sido baleado e morto, Vito me parabenizou na hora e a partir dali me tornei o que sou até hoje, o que serei até o momento em meu último miolo derreter e meu olho descolar da orbita por conta da voltagem alta.
A partir dali eu tive que sair da escola, aprendia o que dava lendo em casa. Era chamado para “missões” frequentes. Basicamente consistia em matar, roubar, obter informações necessárias de forma eficaz (tortura inclusa, claro) e fazer o acordo ou entrega do carregamento. Era simples, eu impunha respeito em todos e se não respeitassem, eu tinha o total direito de eliminar do mapa de forma rápida e eficaz. Nenhuma dessas missões em si foram tão marcantes quanto a primeira, a qual já mencionei. Era mandado para o bairro chinês, árabe, já cheguei a ser mandado até para outros Estados. Claro que minha vida não ia passar despercebido, eu era conhecido nesse submundo e quase sempre tinha alguém tentando ter minha cabeça como troféu, mas como podem perceber, não conseguiram... e foi por pouco.
O motivo da minha prisão é uma coisa tão banal e idiota, que acho desnecessário entrar em detalhes. Basta dizer que foi uma enrascada muito malfeita em que eu caí. Tráfico de armas não dá pena de morte, mas assassinatos sim.
E neste momento você, o leitor dessa carta, deve estar se perguntando se eu sinto culpa, remorso, ou qualquer merda desse tipo agora no meu leito de morte (ou cadeira, no caso) e a resposta é direta e contém três letras: NÃO! E sabe por que?
Porque se eu não tivesse ido atrás de Vito e ajudado em tudo que ele me pediu e propôs, eu teria sido um zé ninguém e moraria no lixo, provavelmente se rendendo a tentação das drogas igual aconteceu com a minha mãe ou com meu pai – o qual nunca fiz ideia de quem era –. Hoje sou conhecido, fui respeitado na prisão, respeitado fora dela e serei lembrado para todo sempre.
Enfim o guarda me chama, tá na hora de fritar um pouco. Tenho alguns agradecimentos a fazer, primeiro ao ser vivo que roubou minha caixa de engraxate porque se não fosse ele, eu não teria trilhado esse caminho. E também claro, agradeço a Vito pela oportunidade e por toda a ajuda que pode me dar ao longo dos meus 23 anos que acabam hoje. Vida curta, não? Mas vou sem arrependimento, afinal só se vive uma vez.

Texto do Blog Livros, Amor e Mais.
Sou leitora deles há pouco tempo, mas adoro esse cantinho especial.

sábado, 13 de agosto de 2016

Feliz dia dos Pais


Acordei e olhei para o lado, ele dormia tão tranquilamente. Como será que reagiria a notícia? Até que enfim eu poderia contar. Estava me segurando há duas semanas desde que descobri, mas hoje seria o grande dia. 
Levantei me da cama sem fazer barulho para não acorda-lo, mas sabia que logo mais ele iria despertar. Fui ao banheiro, lavei o rosto, arrumei o cabelo e alisei minha barriga. Eu não poderia estar mais feliz. 
Peguei em minha parte do guarda-roupa a caixinha que tinha a surpresa e fui para a cozinha preparar o café da manhã. Assim que terminei de arrumar a mesa coloquei a caixinha em frente ao seu lugar de costume.
Não precisei esperar muito até que sentisse o me abraçando por trás.
 - Bom dia querida - disse ele em meu ouvido. Eu sorri.
 - Bom dia amor. Está com fome?
 - Sabe que acordo faminto.
E era verdade, ele comia tudo que estivesse em sua frente depois de acordar. 
Peguei o café no fogão e juntos fomos para a mesa. Meu coração se acelerava mais a cada passo. 
 - O que é isso? - perguntou ele surpreso quando viu a caixa em cima da mesa. 
 - Abra - disse eu sorrindo. Ele tinha que fazer aquilo logo porque eu quase não me continha, iria chorar de emoção ou sorrir até minhas bochechas doerem.
Ou as duas coisas. 
Ele olhou desconfiado para mim e abriu a caixa. 
Seus olhos transmitiram choque, surpresa, ele sorriu e por fim seus olhos encheram de lágrima. 
 - Isso é sério? - perguntou ele tirando os sapatinhos amarelo da caixa com o teste de sangue que deu positivo e o bilhete que dizia: 
"O primeiro dia dos pais a gente nunca esquece. Feliz dia dos pais meu amor".
 - Sim - disse eu já entre lágrimas. Estava tão feliz por ele saber agora também. Ele veio até mim e me abraçou, me tirando do chão. - Feliz dia dos pais. 

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Conquistar


Olhei-me no espelho, estava quase pronta. Havia vestido a melhor roupa, os sapatos novos e dava o último retoque no batom. 
Hoje seria um grande dia, precisava impressiona-lo e conquista-lo.
Sai do quarto e caminhei para a sala.
Ele me olhou de cima a baixo e sorriu.
 - Você está linda - disse meu marido.
 - Posso dizer o mesmo meu amor.

O amor é algo a ser conquistado todos os dias.

sábado, 30 de abril de 2016

Pequeno conto


O cheiro do café invadia a sala, poderia sentir este aroma todos os dias da minha vida que não me cansaria.
 - Metade do copo? - perguntou ele da cozinha. Espiei por cima do sofá e sorri. Ele sorriu também. - O que foi?
 - Nada - disse eu sorrindo - Metade do copo.
Ele trouxe dois copos com café e me deu um, sentou do meu lado e nos aconchegamos. 
Poderia estar com ele todos os dias da minha vida que não me cansaria. 

sábado, 27 de setembro de 2014

[Qualquer título serve]


Aquela prova tinha sido uma droga, eu tinha estudado a droga do mês inteiro para ficar em DP naquela droga de matéria. Droga. Meus pais iriam me matar, eles pagavam faculdade e apenas exigiam: estude. Estude 24 horas por dia - eu tinha sido a nerd em casa e a boa garota para ficar com DP. Talvez eu precisasse de umas doses. Me dirigi para o barzinho de costume, sozinha, eu queria ficar um porre. Sentei ao balcão e pedi um whisky, o ar cheirava a hortelã e alguma música que eu não conhecia estava tocando, mas era boa, o ambiente mal iluminado estava até me fazendo sentir melhor.
 - Posso me sentar aqui? - Olhei para o dono da voz, era alto e moreno, eu podia ver alguns músculos através da camisa e seu sorriso era bem cafajeste. Apenas balancei a cabeça em sinal afirmativo, a noite ia ser longa. - Onde está seu namorado?
 - Ficar em casa estudando não garante romances - disparei bebendo a terceira dose já e por que diabos eu tinha falado aquilo? 
 - Estude menos, se divirta mais - ele olhou em meus olhos para falar isso e eu estava pensando em uma resposta quando ele disparou outra - Parece que teve uma noite difícil, estou certo?
 - Sim - ok, ele sabe jogar, sabe como falar com mulheres que estão bebendo sozinhas num barzinho. Inexplicavelmente contei porque estava ali e como seria quando eu chegasse em casa, ele me pagou uma bebida que eu nem sei o nome e dez minutos depois estávamos conversando, cantando e sorrindo como se nos conhecêssemos anos a fio. Entre intervalos de tempo ele me olhava de cima a baixo, e eu sentia algo em meu estomago... que bem, não tem como explicar. E eu olhava para ele também, tentei guardar cada linha de seu corpo. Disse que precisava ir ao banheiro, e ele disse também. Fomos juntos, mas na volta para nossos lugares não foi como eu havia planejado - foi melhor. Antes de sair do corredor dos toiletes, ele puxou meu braço e então eu estava dentro de uma sala, parecia mais um escritório. Meu cérebro tinha sido lento demais para ver que ele tinha aberto a porta e depois fechado-a atrás de mim. Senti meu corpo contra a parede, e senti o corpo quente dele sobre o meu. "Não vou fazer nada que você não queria, e nem te obrigar a nada" sussurrou ele em meu ouvido, o que acendeu um desejo voraz dentro de mim. Olhei para os olhos dele, enrolei minhas mãos em seu cabelo e o puxei para um beijo - o contato foi eletrizante. Ele delineou meu rosto com as mãos e depois o corpo, ele sabia exatamente o que fazer e como fazer. Em minutos eu estava deitada sobre a mesa, e ele em cima de mim, beijando meu rosto, meu pescoço, meu corpo. Eu o queria. E não estava preocupada sobre estar em um pequeno escritório com pouca luz dentro de um barzinho, com um cara que eu não conhecia. E melhor, eu nem sabia mais o que era faculdade. Eu só sabia que ela era bom no que fazia e que meu corpo respondia positivamente - e estava ficando cansado. Minutos depois estávamos prontos para sair do aposento, e eu estava pronta para ter uma longa noite de sono.
 - Você vai embora agora, não vai? - perguntei, eu sabia o que aconteceria a seguir. Soube no momento que vi o sorrido dele. Ele veio até mim, passou a mão em meu rosto, me deu um beijo e disse apenas sim. - Posso saber o seu nome ao menos? 
 - Você não vai precisar - disse ele sorrindo e saindo da sala. Engraçado, a noite tinha sido perfeita e eu nem sabia o nome do "salvador da pátria". Não o esqueceria hoje, e nem amanhã, e se alguém perguntasse sobre arrependimento, eu sabia que nunca teria. 
Sai da sala e olhei pelo barzinho, é, ele não estava mais lá. 

sábado, 9 de agosto de 2014

Mudando o rumo


Maria estava trêmula enquanto fazia aquilo pela terceira vez, seu namorado havia pedido, ele queria ver com os próprios olhos o resultado. Maria saiu do banheiro e entregou à Henrique aquilo que confirmaria a mudança definitiva da vida dos dois, desabando na cama em seguida - ela não sabia o que aconteceria a partir dali. Henrique assumiu uma expressão mais séria e de preocupação. Ele olhou para ela, Maria estava se controlando para não chorar, ela já havia surtado o suficiente nesta ultima semana. Os dois namoravam há dois anos, ela tinha 20 anos e ele vinte e dois, eram novos demais. Henrique foi até ela e abraçou-a, "vai ficar tudo bem" sussurrou em seu ouvido, mas a verdade era que ele também estava com medo. "Como vamos contar para os nossos pais? Vão nos matar..." disse ela derrubando as primeiras lágrimas."Vamos dar um jeito, você e eu, juntos". Os dois se apertaram mais na pequena cama, um peso enorme havia caído em cima deles, responsabilidades aumentariam e dois futuros seriam modificados. Henrique olhou ainda uma ultima vez para o teste de gravidez, positivo, Maria tinha um filho seu no ventre, é, ele seria pai. 

Raphaela Barreto
P.S: Um feliz dia dos pais!

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Baile de Máscaras


Marta Santos passou todo o dia do Carnaval a trabalhar num novo projeto para a empresa de arquitetura em que trabalhava. Quando saiu do escritório estava um pouco cansada, ainda assim não resistiu a sair para descontrair um pouco do stress dos últimos dias. Vestiu um vestido negro arrojado com uma pequena mascara vermelha que tapava um pouco da sua face. Olhou-se ao espelho e deu um pequeno sorriso, sentia-se deslumbrante.
Dirigiu-se para a festa privada a que tinha sido convidada. Assim que entrou observou que estava completamente cheia, percorreu toda a sala despreocupadamente. Os seus olhos verdes intensos pararam quando encontrou um jovem loiro que lhe captou a atenção. A máscara daquele homem revelava uns olhos azuis safira. Olhou fixamente para ele durante algum tempo, até que ele reparou que estava a ser observado. Lançou um sorriso encantador que a deixou completamente hipnotizada. Retribuiu. Estava altamente atraída por aquela pessoa, sentia uma enorme excitação por todo aquele mistério.
Ficou surpreendida quando aquele estranho lhe fez sinais para irem lá para fora. Marta Santos ainda hesitou, mas num momento de loucura seguiu aquele homem. Enquanto avançava atrás dele reparou naquele corpo esbelto e bem constituído. O seu coração acelerou, a arquiteta nunca fora do tipo de pessoa de arriscar numa aventura. Tudo aquilo era território novo. Enquanto isso, Ele parou numa pequena e discreta ruela, virou-se para ela e olharam-se durante um longo período de tempo. Não houve quaisquer troca de palavras. De repente, sem que nada o fizesse prever aquele homem deu-lhe um longo e apaixonado beijo.
A princípio a arquiteta ainda tentou negar o avanço, mas acabou mergulhada naquela volúpia de prazer. Rapidamente os beijos começaram a aumentar de intensidade, o que fez com que aquele par ficasse com a respiração ainda mais ofegante... O desejo de Marta Santos aumentava a cada minuto, assim sendo começou a percorrer o corpo daquele homem com as suas mãos. Aquele era o incentivo que aquele estranho necessitava. Com grande destreza levantou-lhe a perna direita. O momento era escaldante para aqueles dois…
Ela baixou-lhe as calças o mais rápido que podia, não suportava mais a espera. Começaram a fazer amor naquela ruela escondida. A arquiteta não consegui suster os gemidos frenéticos produzidos pelas penetrações constantes. O homem sorriu e aumentou a intensidade. Marta Santos ficou absolutamente descontrolada, cravando-lhe as unhas nas suas costas. Estiveram ali durante um longo e prazeroso tempo, não se importaram com mais nada além do prazer carnal. Os movimentos eram cada vez mais rápidos e acabaram os dois com um orgasmo mutuo. Voltaram a olhar-se, cansados mas definitivamente satisfeitos.

- Então meu amor, quando é voltamos a repetir? – perguntou Pedro Santos, enquanto tirava a máscara. Á sua frente, estava o seu marido com aquele sorriso que tanto amava.

Texto do blog "Um mar de Recordações"
Achei muito bom este conto e decidi posta-lo,
espero que gostem.

P.S: Minha internet está "ótima" e este é mais um motivo das minhas ausências prolongadas.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Uma parada de ônibus



Eu estava sentada no banco do ônibus quando ele passou por mim com a camiseta de uma banda qualquer que eu não consegui identificar. Cheirava a problemas, o que o deixava mais irresistível. Olhei para trás e procurei onde ele estava sentado – no ultimo banco, ao canto – nossos olhares se encontrarem e acho que um rubor tomou conta de mim, desviei o olhar, mas a tempo de ver um sorriso brotar no canto de sua boca. Abaixei a cabeça e sorri também, o que eu estava fazendo? Eu tinha um sério problema de ter quedas por garotos com cabelos grandes, calças caídas e vans nos pés – fora o rostinho de não se aproxime ou vai se machucar. Meu ponto estava chegando, é claro que eu iria fazer a maior burrice da minha vida. Abri a mochila, peguei um pedaço de folha qualquer e anotei meu número do celular e aguardei até faltar poucos metros para a minha parada. Levantei cautelosa do banco, eu sentia o olhar dele me fitando, até que era divertido se eu não estivesse a ponto de ter um infarto – o fato era que alguma coisa nos olhos dele tinha me chamado a atenção, ok, parece clichê, mas não vou mentir. Apertei o botão que faria o motorista parar em meu ponto, respirei fundo e antes que o ônibus parasse completamente me virei na direção dele e ele já estava com a mão estendida (o que me fez querer saber se muitas garotas faziam isso, ou se ele estava com o pressentimento de que eu iria entregar meu número). Nossas mãos se tocaram por milésimos de segundo, foi bom, ele fez um aceno com a cabeça e sorriu, e eu saí correndo do ônibus, vermelha, me perguntando o que tinha dado em mim. 

Raphaela Barreto

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Doses


Depois do décimo copo ela já nem sentia mais os lábios – tudo estava amortecido. “Garçom, mais uma rodada” disse ela terminando de beber o restinho que havia em seu copo. Já mais nada importava e ela poderia ficar ali horas, sem ver o tempo passar, mas observando o cenário a sua volta se transformar. Mais nada importava agora, o estupor há a havia consumido e copo após copo ela ia se afundando em um mar de escuridão. E apenas um pensamento passava pela sua mente “como é que vou ir embora daqui sem aquele idiota?”

Raphaela Barreto 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Eu que não amo você


Passados tantos anos você me aparece e encontra a casa ainda desarrumada, com um pouco do seu jeito, com o resto do seu aroma, os mesmos móveis e o jardim por cuidar. Não vou admitir que foi fácil sua partida e pensei que jamais iria voltar, mas ai está você em pé a porta com duas malas nas mãos – me parecendo que veio para ficar. O batom está brilhando em seus lábios ainda, lábios que costumavam me beijar carinhosamente. Meu instinto foi correr até você, pedir que ficasse, que fizesse de nossa antiga casa um lar novamente – você me levou você, nossos filhos e um pouco de mim também. Nas madrugadas era um tormento, havia fantasmas de nosso passado nos cantos escuros da sala, havia muito vazio aqui dentro e pouco de mim. E agora você volta, me pede desculpas, mostra a foto de nossos filhos já grandes e eu apenas pergunto, por quê? Por que você me deixou em uma segunda feira cinzenta, sem explicações, e agora volta pedindo perdão? Uma lágrima escorreu de seu olho, eu te perdoo, mas quando você foi embora levou uma parte de mim, e a parte que ficou aprendeu a não confiar em ninguém e a não voltar atrás, a casa vai continuar com nossos fantasmas em seus cantos empoeirados, mas você não poderá ficar aqui, uma nova vida não pode existir onde já houve morte – sinto muito.

“Eu que não fumo queria um cigarro, eu que não amo você, envelheci dez anos ou mais, neste último mês. E eu que não bebo pedi um conhaque, pra enfrentar o inverno, que entra pela porta que você deixou aberta ao sair. [...] Senti saudade, vontade de voltar fazer a coisa certa, aqui é o meu lugar, mas sabe como é difícil encontrar, a palavra certa, a hora certa de voltar; a porta aberta, a hora certa de chegar [...]. O certo é que eu dancei sem querer dançar, e agora já nem sei qual é o meu lugar, dia e noite sem parar, procurei sem encontrar, a palavra certa, a hora certa de voltar; a porta aberta, a hora certa de chegar – Eu que não amo você, Engenheiros do Hawai.
 
O tema sugerido foi o começo do texto (em itálico) pelo wcastanheiro, 
que sem duvida é um dos melhor blogs que leio.
Ao escrever o texto tentei fugir do "você foi embora e agora que voltou tudo ficará bem e nós vamos viver felizes para sempre" Resolvi mudar tudo e ao escrever lembrei da musica do Engenheiros. 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Dor

Era um domingo comum. Uma tarde comum. Era pra ser um passeio comum. Eu estava indo ao parque com meus pais, buscar minha irmãzinha para leva-la para a casa. O farol abriu e meu pai acelerou, tarde demais pra ver o que ia acontecer. Um caminhão vinha na direção contrária, a toda velocidade. Olhei assustada segurando-me mais ainda no banco da frente. Ele deveria ter parado não? O impacto foi inevitável. Senti uma pancada do lado direito do carro, barulhos estridentes de vidros se quebrando e metal sendo arranhado. Gritei. O carro girou algumas vezes, bati minha cabeça e meu corpo ia sendo lançado de um lado para o outro, mesmo com o cinto. A dor era terrível. Perdi as contas de quantas vezes o carro capotou. O pânico me invadia e flashes de sorrisos passavam em minha cabeça, até a imensa escuridão chegar. O carro havia parado. Olhei para minha mãe, ela sorria para mim sem felicidade nenhuma, lágrimas me vieram aos olhos. Ela estava encharcada de sangue. Olhei para meu pai, suas órbitas estavam vazias, havia um enorme machucado em seu rosto. Ele já se fora - pensei começando a chorar. Cada centímetro de mim doía. Minha mãe estendeu a mão para mim, e eu peguei, lembrando de como as pessoas me diziam que eu parecia com ela. Mamãe não iria mais aguentar por mais tempo.
 - Eu te amo - ela sussurrou. 
 - Eu também te amo - disse olhando pra ela. Sua mão deslizou da minha - Mãe? Mãe? - gritei para ela, mas não obtive resposta. Comecei a chorar. Meus pais estavam mortos, bem ali na minha frente, e algo me dizia que eu teria o mesmo fim. Cada centímetro do meu corpo doía e minha visão começava a vacilar já. Tateei meus bolsos em busca do celular, precisava fazer mais uma coisa. Ouvia vozes lá fora já. Disquei o número assim que encontrei o celular, eu estava tremendo muito. Juliana? disse a voz do outro lado. Como era bom ouvir aquela voz, reconfortante. Chorei mais alto. 
 - Julie? O que aconteceu? Fala comigo por favor.
 - Meus pais...eu - não conseguia dizer, parecia que algo estava entalado em minha garganta. 
 - Julie o que houve? - disse ele preocupado.
- Felipe, estou vendo meus pais...mor...tos, eu...eu...
 - O quê? Onde você está? Calma, tudo vai ficar bem 
 - Não - disse sorrindo e chorando ao mesmo tempo. Minha visão ia e voltava e eu já não sentia minhas pernas - Siga sua vida...e... Eu amo você Felipe.
- Eu também amo você Juliana, agora me conta o que está acontecendo? - ouvir que ele me amava era o bastante. A força de meus braços estava acabando, vacilei e o celular caiu da minha mão. Ouvia Felipe gritar meu nome do outro lado da linha. Ouvi barulho de sirenes. Eu só queria que a dor parasse. Lentamente fechei os olhos. Meu celular tocou e eu sabia que era o Felipe pelo toque. Sorri uma ultima vez e então mergulhei numa escuridão sem fim. Num lugar aonde o barulho não chegava. Onde a dor não existia mais.