sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Te vestir. Não te avistar.



Olha, eu tenho vivido dias revirados só porque ás vezes, quando esfria, eu sinto sua falta. E esses dias revirados têm sido puro inverno. Engraçado como a melancolia vem junto com o vento. Entrei no clima do revira-volta, revirei o ármario, a agenda, a gaveta fui me agasalhar do frio, e me vesti de você! INFERNO! Até escutei sua voz falando baixinho, que essa seria uma boa rima. Inverno - inferno, que agora tem o mesmo endereço. Até pensei no seu sorriso bobo quando eu chegasse pra contar que em cada linha desse texto eu parei pra olhar o visor do celular imaginando uma nova mensagem!
Eu te vesti quando fui pro sofá liguei o dvd e não quis ver um drama, escolhi um romance desses mal produzidos, mal legendados e com fim sempre tão igual. Então o seu eu que agora estava em mim, me dizia que nosso fim seria diferente, que nosso filme era gravado no olhar um do outro, sem flash, sem platéia, sem rodeios!
Dormi no sofá. Acordei com sua voz que me chavamava só em mente, me pedindo baixinho pra não me despir de você, porque no frio a casa é grande demais pra andar com a alma nua! Qualquer acordo bobo que a melancolia fizer com o vento, pronto. Resfriado ataca a alma. Congela o pensamento. E deixa a gente por dias deitada na cama chorando com a trilha da novela. E por isso eu me vesti ainda mais de você.
Dormi bem com o abraço que você dava na minha alma, que era feito pelos meus próprios braços. E sonhei outra vez que tua alma ocupava espaço na minha casa, e minha casa era o que batia em seu peito. Acordei outra vez com sua voz me chamando baixinho, num timbre que só você alcança, e então fui tratar de ser o eu que só você tem.
Preparei o café forte, montei mesa pra dois e você me acompanhou. Dois copos na mesa, dois lugares, dois pratos, dois croassaint , e um corpo. Bebi duas doses de café, bebi no teu copo, te vesti no meu corpo, e me alegrei em mim. Olhei pela vidraça e o inverno de ontem tinha ido embora e achei que era hora de você ir também. E você disse baixinho que podia ficar mais, que queria ficar mais, e que a gente valia mais. E te vesti outra vez.
Te vesti quando fui até a varanda só pra ver a gente sentados na escada, ouvindo a musica que era mais minha do que sua, mas a gente dizia que era nossa! Te vesti quando tocou o telefone eu atendi e disse que não estava, porque quando estou contigo não estou pra ninguém, não estou pra nada.
E tua veste me fez companhia por tantos dias, que estavam só por fazer. E a casa foi mais quente, a mesa mais bem posta, os filmes mais inusitados, a varanda mais querida, e eu tão mais amada! E você passou a ser minha roupa favorita, te vestia pra ir à feira, te vestia pra ir a festa, te vestia pra dormir.
E te vesti tantas outras vezes, te vesti sempre, te vesti de novo. E dizia que era sempre a ultima vez, porque morrer de frio é doloroso, e doloroso foi quando eu vi que de tanto te vestir estava por morrer de amor! E morri outra vez!
Morri de amores, morri de dores, morri só por morrer. Não, não estou dizendo que te vestir tenha sido ruim, me vestir de você era maravilhoso. Ruim era quando eu lembrava que só te vestia e não te avistava em canto nenhum. E foi então que fechei a vidraça, porque o inverno chegava outra vez.



Texto da Tainá Oliveira, do blog Venenos e Maças.
O texto está otimo, a forma escrita também e o contexto do texto maravilhoso.
Parabéns.

3 comentários:

  1. Li esses texto no blog dela e cheguei aqui.
    Realmente é um lindo texto, muito bem escrito

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  2. Boa escolha Rapha,
    é mesmo um ótimo texto.

    Grande beijo e linda noite pra vc...

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  3. Lindo os teus escritos. Gostaria de saber se posso lincar seu blog. Vou seguir com prazer. ok?
    Beijos!
    E uma ótima semana pra ti!

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